AVE – Valorização energética através do coprocessamento

by on 15 Agosto, 2019 in Frotas, Pós-Venda

AVE – Valorização energética através do coprocessamento

A Revista Automotive foi conhecer a AVE – Gestão Ambiental e Valorização Energética, onde os entrevistados Marco Mata (Diretor Geral) e Luís Realista (Administrador), explicam-nos a importância de se valorizar os resíduos sem potencial de reciclagem, bem como a dinâmica implementada pela Valorpneu no nosso país.

“Começamos pela Valorpneu. Quando fizemos o primeiro protocolo com essa entidade gestora, direcionamo-nos para os pneus que têm menos aptidão para a reciclagem. Isto aplica-se aos pneus que, ou não têm potencial de reciclagem, ou a sua reciclagem implica um custo superior ao valor intrínseco do produto que vai gerar.

Nós temos a solução que é a valorização energética, com uma vantagem de poder integrar a componente mineral do pneu (e, portanto, não queimável), enquanto matéria-prima no produto final. A este processo denomina-se coprocessamento.

O coprocessamento nas cimenteiras é uma atividade de valorização integral e segura de resíduos sem potencial de reciclabilidade. O termo “coprocessamento” é utilizado para descrever a introdução de combustíveis e matérias-primas alternativas em indústrias, em substituição de combustíveis fósseis e/ou matérias-primas convencionais. Os resíduos, não sendo tecnicamente viável a sua reutilização ou reciclagem, encontram no coprocessamento na indústria cimenteira uma forma de serem valorizados energeticamente e materialmente, prolongando assim o seu ciclo de vida.

Assim, além da valorização energética do pneu, temos também uma valorização material que conta para a meta da reciclagem da Valorpneu. Diferente de uma inceneração dedicada, onde as cinzas resultantes da queima costumam ter como destino final os aterros, no nosso caso incorporamos as cinzas na matriz do nosso produto final (cimento) e isso tem uma vantagem para o ambiente.

Temos uma atividade muito inovadora, que surgiu de um estudo feito pela AVE, em conjunto com a Valorpneu, a Valorcar e a Sociedade Ponto Verde, onde provamos cientificamente o valor positivo da valorização material na indústria cimenteira, daquilo que se coprocessa.

O grande aporte que demos à Valorpneu foi resolver uma parte significativa dos pneus que não tinham destino na reciclagem, nem na reutilização, e que iam assim para aterro. Pneus de grande dimensão, de atividade agrícola, atividade industrial, pequenos pneus de bicicleta ou de mota.

Valorização do têxtil

Temos também um apport muito interessante nos excedentes provenientes da indústria da reciclagem, nomeadamente a fração têxtil do pneu, onde fazemos também a valorização energética, e que antes seguiam para o aterro. Conseguimos incorporar nas cimenteiras, como combustível alternativo. Nesse caso não é uma relação direta com a Valorpneu, mas com os recicladores nacionais que colaboram com a Valorpneu.

Além da Valorpneu, temos relações com outras entidades Europeias, com a SIGNUS em Espanha, a Aliapur em França, inclusive países que não têm entidades gestoras de pneus em fim de vida como é o caso de Inglaterra.

Temos um laboratório com uma intervenção significativa no processo de validação da qualidade dos pneus, além da monitorização na origem, controlos físicos e químicos. Isto significa que estamos presentes em todo o processo, tanto na recolha junto ao produtor como na chegada às fábricas e ao seu consumo, para garantir uma prática regular e dar fiabilidade a todo o processo, pois estamos a trabalhar com grandes investimentos.

Por exemplo, certos compostos que não tenham uma validação na origem ou na preparação, podem causar grandes danos em equipamentos de avultado valor nas cimenteiras e que ficam inoperativos durante algum tempo.

Características e valores

A AVE é constituída por três acionistas: Cimpor, Secil e SGVR. A AVE realiza todo o trabalho de contacto com o mercado (detentores de resíduos, autoridades, cimenteiras, entre outros), sendo que a indústria cimenteira pode assim especializar-se no seu core business.

Enquanto valorizadores energéticos, realizámos um estudo aquando dos nossos 13 anos de existência, para vermos os resultados obtidos. Entre 2005 e 2017, o coprocessamento permitiu evitar a emissão de 2,8 milhões de toneladas de CO2, o equivalente à substituição de 86 mil carros a gasóleo por carros elétricos.

Com as nossas atividades, evitou-se o consumo de 1,7 milhões de toneladas de petcoque, o equivalente a 67 mil camiões de transporte; e permitiu a valorização material e energética de 7,5 milhões de toneladas de combustíveis e matérias-primas alternativas, o equivalente a 700 campos de futebol cheios com 1 metro de altura de resíduos. Tudo isto é, posteriormente, devolvido à economia através de um produto acabado que é o cimento. Apesar destes valores serem impressionantes, nem sempre os números espelham o real valor de toda esta cadeia de aproveitamento para o ambiente.

Respeitamos muito as outras atividades da reciclagem, e não procuramos de forma alguma “esmagar” essa cadeia de valor, pois tem muito mais lógica a reciclagem, mas também sabemos que como nem tudo pode ser reciclado, as nossas soluções são vantajosas em termos económicos de longo prazo, e fundamentalmente, são protetoras do meio ambiente.

Valorização energética e material das viaturas

Visto que a Automotive é uma Revista da especialidade, gostaria também de referir que no final de vida do automóvel, no seu desmantelamento, na fração não-valorizável, (nomeadamente o interior do carro), existe uma diversidade de materiais compósitos cuja reutilização é muito complexa. Conseguimos valorizar energeticamente essa fração, evitando a deposição em aterro.

Um exemplo até curioso é que um carro ligeiro no fim de vida tem cerca de 80kg de terra: na cava das rodas, no chassis e suspensões, no motor, entre outros. Existe assim uma fração mineral acumulada que é desta ordem de grandeza.Nós utilizamos essa terra, que basicamente é sílica no nosso processo de valorização material. Ou seja, de uma forma simples, os 80kg de terra de um carro em fim de vida depois estarão, em certa medida, num saco de cimento.

Em Portugal temos uma caraterística muito importante na área automotiva que é a responsabilidade alargada do produtor, que responde através das várias entidades gestoras, como é o caso da Valorpneu, Valorcar, Sogilub, entre outras. Estas entidades funcionam muito bem na sua missão.

Evolução na gestão dos pneus em fim de vida

Já antes da criação da Valorpneu que se valorizavam energeticamente os pneus em cimenteiras, na nossa fábrica de Maceira, onde se queimavam pneus inteiros, de uma medida específica. Hoje em dia, esses pneus têm muito mais aptidão para a reciclagem, daí termos reduzido as atividades dessa fábrica. Com a criação da entidade Valorpneu, desenvolveu-se uma maior profissionalização do mercado, que permitiu aumentar a cadeia de valor e de controlo dos pneus em fim de vida, sendo implementado de forma exemplar em Portugal.

No nosso país, conseguiu-se criar uma cultura de valorização do pneu, ao longo de todo o seu ciclo de vida, desde o descarte correto pelas empresas de manutenção e reparação, e posteriormente na recolha, transporte e acondicionamento, para depois ser valorizado através da recauchutagem, reciclagem ou valorização energética. E isto é um dos fatores da grande importância das atividades da Valorpneu.

As metas da reciclagem e do processo de comercialização do produto final resultante dessa atividade também estão completamente descortinadas e vigiadas, e bem desempenhadas. O principal foi criar uma entidade gestora, com um Ecovalor que permitisse financiar toda esta atividade, evitando os custos para o ambiente dos pneus abandonados.

A Valorpneu consegue assim um retorno económico, social e ambiental extremamente importante para todos nós, enquanto empresas e enquanto cidadãos,” ressaltam Luís Realista e Marco Marta.

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