Crime ambiental – limpeza voluntária salva população, fauna e flora

by on 21 Março, 2020 in Frotas, Pós-Venda

Crime ambiental – limpeza voluntária salva população, fauna e flora

Texto: Eduardo Gaspar    Fotos: Pedro Almeida/GEM

A Automotive esteve em Valongo a entrevistar Eduardo Vieira e Pedro Almeida (respetivamente 1º e 2º na imagem, da esquerda para a direita), do Grupo de Espeleologia e Montanhismo (GEM), que realizaram a limpeza de resíduos automóveis despejados ilegalmente na cavidade do Fojo das Pombas – Valongo. A ação do GEM em coordenação com as autoridades evitou danos maiores na fauna e flora locais, bem como reduziu o risco de contaminação pela água da população da região.

Eduardo Vieira e Pedro Almeida contam-nos que “tudo começou com o Sr. António Felgueiras – pioneiro na espeleologia em Valongo – que detetou no dia 9 de janeiro um despejo de resíduos na cavidade do Fojo das Pombas e fez uma denúncia à Câmara Municipal de Valongo (CMV). Quando viu o entulho à superfície não imaginava o que estava lá dentro…

É comum o nosso grupo de espeleologia estar naquela serra e daí o Sr. Felgueiras nos ter contactado também. Fomos ao local e tivemos contacto com a CMV in sito, ao mesmo tempo que a PSP esteve para recolher provas. Rapidamente verificamos que a CMV não tinha meios de saber o que se passava na cavidade, que tem 70 metros de profundidade, ao que nos organizamos para preparar uma descida.

Enquanto membros do GEM, apesar de não precisarmos de uma autorização da CMV para descer a cavidade, desta vez só o fizemos depois de uma autorização da CMV para descer ao local. O nosso trabalho regular é descer às cavidades e realizar o mapeamento delas, mas este caso é diferente, trata-se de um crime ambiental e queríamos estar acautelados por uma autorização camarária. Até porque podíamos ter de recolher algum material, e isso poderia ajudar a perícia da PSP.

Com as devidas autorizações, descemos à cavidade. Deparamo-nos com um cenário horrível: já na descida vimos as paredes cheias de óleo e quando chegamos lá abaixo tinha óleo no chão que já se tinha infiltrado nas terras. (Infelizmente houve um compasso de espera muito grande por parte das autoridades. Só puderam descer passado quase um mês. Ndr – Nota da redação)

Nas profundezas da serra – salvaguardar a população

Apesar de só termos descido os dois, tivemos o apoio de outros colegas do GEM à superfície. Até porque as operações nesse tipo de local são complexas. Temos formação e material específico em espeleologia que nos permite descer em segurança, mas demoramos cerca de 30 minutos até descermos a cavidade, pela dificuldade técnica do local. A cavidade é um ambiente sem luz, vertical, de difícil acesso e com várias “ramificações” na sua base.

Além de bastantes resíduos contaminados, a 70 metros de profundidade encontramos um aquífero, que abastece um lavadouro e um fontanário público na região. Esse aquífero estava completamente contaminado com óleo. Como todas as nossas ações foram sempre comunicadas imediatamente às autoridades, a CMV (passadas duas semanas -Ndr) colocou um aviso no fontanário e no lavadouro para que a população não se abastecesse dessa água.

Articulamos com as autoridades a retirada dos resíduos, onde a CMV trouxe técnicos para recolher aquilo que trazíamos à superfície que era essencialmente muito material de oficina automóvel: bidões de óleo, pneus, matrículas, sprays de limpeza, panos, rolos de papel, entre outros detritos.

Recolhemos também as lamas e pedras contaminadas para os bigbags, que foram retirados por uma grua especial fornecida pelas autoridades: tinha uma lança com 80mts e um cabo de 120mts.Entretanto a CMV entrou em contacto com a Marinha porque um dos ribeiros também estava contaminado, cheio de óleo.

Articulamos no local um plano com a Marinha, porque não conheciam o terreno nem as cavidades. O óleo é um resíduo complexo de se limpar, foi preciso um plano detalhado para que não se limpasse de um lado e sujasse do outro. No total, estimamos que tenha sido despejado cerca de 250 litros de óleo automóvel.

Notámos que a Marinha tinha experiência e meios técnicos em lidar com estas situações à superfície. Providenciaram telas de retenção e mantas de absorção de óleo, bem como máquinas de alta pressão para limpeza das paredes e margens do ribeiro. Enquanto a Marinha trabalhou à superfície, nós continuamos o trabalho na profundidade.

Foram vários dias de trabalho difíceis, principalmente porque tivemos dias com chuva torrencial, com terreno bastante escorregadio. Para se ter uma ideia da dificuldade do acesso, para acedermos a uma das áreas para colocação das mantas de absorção de hidrocarbonetos demoramos cerca de 4horas.

Recuperar fauna e flora

Entretanto resgatamos anfíbios que fazem parte de uma biodiversidade muito frágil, característica daquelas cavidades por serem um local mais protegido do exterior e portanto tudo o que lá habita tem uma sensibilidade muito grande que importa preservar. São salamandras, tritões e sapos que estavam completamente contaminados e muitos estavam presos nos bidões de óleo. Os anfíbios respiram pela pele e por isso a nossa primeira preocupação foi proceder à sua limpeza, e depois retirá-los do local.

É preciso salientar que só recolhermos os animais depois de termos autorização para o fazer. Não podemos esquecer que são animais silvestres e o transporte deles deve ser devidamente acautelado em temos de autorizações, se não podemos incorrer num crime.

Retiramos mais de duas dezenas de anfíbios que entregamos ao Centro de Recuperação de Fauna do Parque Biológico de Gaia. Este centro costuma receber animais como milhafres, entre outros, mas em termos de anfíbios foi preciso pedir a ajuda ao centro de recuperação de anfíbios da Catalunha que está habituado a lidar com estas situações. Acolheram-nos muito bem, infelizmente um faleceu, mas quase um mês e ainda não podem ser recolocados na natureza novamente.

Quanto aos fetos, limpou-se o que era possível. Como não temos experiência nessa área, não sabemos as reais consequências, tendo em conta que são espécies raras como já referimos.

Trabalho 100% voluntário

As nossas profissões nada têm nada a ver com espeleologia. O nosso trabalho preenche-nos durante a semana e só aos fins-de-semana que podemos dedicar ao trabalho de espeleologia. Quando nos depáramos com aquele cenário tentamos mobilizar o máximo do nosso tempo pessoal para dedicarmos à limpeza do local. Nunca ninguém nos pediu nada, nós é que nos organizamos. Sabíamos que a situação era grave e que se não nos mobilizássemos, provavelmente ninguém o iria fazer.

Sabemos que existem empresas que fazem a limpeza e remoção de resíduos, nomeadamente as que trabalham com a Petrogal, entre outras. Mas o custo dos trabalhos verticais é muito elevado, principalmente quando se trata de ambientes contaminados em locais de difícil acesso (como é o caso).

Fizemos todo o trabalho voluntariamente, sem qualquer remuneração, apoio financeiro ou técnico. Os materiais de descida foram fornecidos pelo GEM e todo o resto foi feito com muito gosto e força de vontade. A CMV forneceu os meios complementares (grua para içar os resíduos, bigbags, entre outros), camião tanque para a limpeza, mais todo o material e meios humanos que a Marinha trouxe ao local.

Foram vários os dias que lá fomos, deixamos a vida familiar para trás e precisamos de estudar muito o terreno para que tudo corresse com a devida segurança. Embora o Parque das Serras do Porto (Paredes, Gondomar e Valongo) tenha funcionários e fundos monetários para a promoção do parque, não têm um plano para este tipo de situações. O despejo de lixo é recorrente na serra, mas foi a primeira vez que se registou o despejo de óleo automóvel. Percebemos que foi novidade para todas as entidades envolvidas CMV, Proteção Civil, PSP.

Trabalho contínuo e consistente na serra

Para que se compreenda a nossa relação com as Serras do Porto, enquanto GEM já georreferenciamos mais de 500 cavidades (sanjas, cortas, poços, entre outras tipologias). O GEM tem a sua sede em Lisboa mas está espalhado pelo país, nós fazemos parte do grupo norte. Fazemos a georreferenciação, topografia e geolocalização, entre outras atividades.

Esta cavidade que se limpou pertence a um complexo mineiro que engloba três serras: Santa Justa, Pias e Puntarreios. Estima-se que seja um dos maiores complexos mineiros romanos a nível mundial. São minas que foram trabalhadas desde o tempo dos Fenícios, depois ocupadas e ampliadas pelos Romanos. Após os Romanos tiveram um período de menor intensidade para depois serem reativadas nos anos 60 e posteriormente abandonadas. No tempo dos Romanos eram ex ploradas para extração de ouro, depois nos anos 60 a exploração foi maioritariamente de volfrâmio.

Das várias visitas que temos feito ao complexo, é possível ver claramente o período Romano, onde as galerias foram escavadas com uma simetria, habilidade, sustentabilidade e estética impressionantes. As cavidades têm todas lucernários para colocação de lamparinas de banha de porco, entre outros pormenores que revelam uma grande preocupação com o detalhe.

As galerias dos anos 60 já se nota a utilização de maquinaria pesada, onde nada tem simetria, os tetos são instáveis (e muitos já colapsaram), é uma diferença muito grande… Este é o património que está a ser aviltado, em conjunto com a flora e fauna sensíveis que habitam nestes locais e fazem deles um ambiente único.

Lições a retirar

A serra está repleta de minas, poços e fojos, muito profundos e a grande maioria estão cobertos apenas por mato. A cavidade do Fojo das Pombas é de fácil acesso por carro, de tal forma que local não é bem frequentado e foi fácil a colocação deste lixo automóvel.

Como referimos, verificamos que não existe um plano para lidar com este tipo de situações – despejo de óleo automóvel e outros resíduos. Um dos exemplos que provam esse despreparo, foi o facto de os resíduos terem sidos retirados do local sem a PSP ter feito a perícia, por falta meios humanos capacitados para esta situação. Valeram as nossas fotos que permitiram a recolha de elementos identificativos dos resíduos para complementar a investigação.

Não sabemos quem fez despejo; tanto pode ser uma rede de desmantelamento ilegal de viaturas ou uma oficina automóvel irresponsável. O que sabemos é que é necessário e urgente lidar com este tipo de situação com eficiência, rapidez e articulação. O que está em perigo é a saúde da população, e biodiversidade destes locais” referem Eduardo Vieira e Pedro Almeida.

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