Scania Híbrido G320 – o sono dos justos

by on 8 Janeiro, 2020 in Pesados

Scania Híbrido G320 – o sono dos justos

Depois de várias comunicações, eis que finalmente a Scania lança o seu modelo híbrido de segunda geração. A Revista Automotive foi convidada a conduzir o modelo em Portugal e, por esta via, tive a oportunidade de estar aos comandos deste novo Scania.

Antes de começar o percurso que tinha idealizado para o camião híbrido, a primeira coisa que fiz foi ver a carga da bateria que, na altura, indicava 77% de carga e 5,4km de autonomia (em modo 100% elétrico).

Apesar de parecer indevido começar um teste com a bateria sem estar nos 100%, até foi bom isso acontecer. Tendo em conta que o Scania G320 é um camião híbrido, mas não é plug-in (bateria carregável através de tomada!), temos a opção de utilizar o motor a diesel do próprio camião para carregar a bateria, basta ligar o camião e apertar um botão do lado direito do volante. E assim fiz, com o camião estacionado, liguei o motor diesel e este ficou nas 8.000 RPM durante cerca de 9 minutos, tempo que demorou para carregar a bateria dos 77 até aos 91% de carga.

Conforto a bordo

Durante esse breve tempo, aproveitei para explorar o interior do Scania G320 que, mesmo sendo um camião vocacionado para a distribuição urbana, tem espaço confortável no seu interior para viagens mais longas, mais do que é o expectável, para um modelo deste tipo.

Rebatendo o banco do passageiro, é possível utilizar a cama, que não sendo homologada para o motorista passar a noite, é mais do que suficiente para um curto e repousante descanso (fotos, pág. seguinte). O frigorífico é de dimensões generosas e os largos arrumos laterais da cabine, complementam a capacidade de proporcionar viagens de médio curso com um conforto acima do esperado.

Reparei no sistema de ar condicionado independente, que está montado no teto da cabine, evita consumos em modo elétrico; em caso de necessidade é preciso um ar condicionado independente para climatizar a cabine. O funcionamento do Scania G320 Híbrido, assenta numa bateria de iões de lítio de 7,4 kWh e no motor elétrico de 177cv, que está montado entre a caixa de velocidades e o eixo de transmissão do camião. O motor diesel debita 320cv, sendo o modelo de 9 litros com cinco cilindros em linha que pode ser alimentado a OVH (óleo vegetal hidrogenado) ou gasóleo.

Uma das novidades deste G320 Híbrido é o compressor de ar, que agora é elétrico. Assim, quando conduzimos este camião em modo 100% elétrico, as baterias de iões de lítio fornecem energia para o motor elétrico, para a direção assistida e para o compressor de ar (que alimenta todo o circuito de ar comprimido do camião). A bateria “normal” de 48 volts, fornece energia para todos os outros componentes elétricos do camião (tablier, painel de instrumentos, etc.).

Em estrada

Explicado este funcionamento, vamos à ação. O percurso que idealizei para o teste tinha como objetivo circular pelo maior número de vias de acessos aos supermercados dentro da cidade, para testar as capacidades citadinas deste híbrido, e claro, a sua autonomia em modo 100% elétrico.

Iniciei assim o percurso desde o concessionário Scania, em Vialonga, em modo 100% elétrico, e com 91% de bateria (indicava 6,4 km de autonomia). As sensações nos primeiros instantes estavam dentro do esperado: bastante silencioso, direção macia e um rolar progressivo. Aqui faço um parêntesis no teste, porque este “rolar progressivo” é importante explicar também.

Nos pesados elétricos que já testei (camião e autocarro), o arranque era muito potente, tendo em conta que os motores elétricos disponibilizam o binário todo, desde o arranque, ao contrário dos motores diesel, cujo binário máximo é atingido acima de uma determinada rotação. Se por um lado é tecnicamente interessante termos o binário todo disponível logo ao arranque, por outro, tratando-se de um pesado, pode ser perigoso ter tanto binário, quer pela possibilidade de proporcionar grandes oscilações na carga transportada, quer pela “tentação” dos motoristas em arrancar sempre a “fundo” pelo prazer que dá a aceleração elétrica.

Desta forma, a progressividade do motor elétrico deste Scania em disponibilizar o binário está muito bem regulada, tornando a sua condução bastante segura, mas sem o deixar lento.

Travagem regenerativa

Fecho os parêntesis e volto para o centro de Vialonga, onde já passei silenciosamente por dois supermercados, com acessos em ruas bastante estreitas. Decido então ir para o bairro da Icesa, um dos locais mais altos da região, para ver se consumo logo a autonomia do camião. Chegando ao topo, faço uma manobra junto ao acesso de outro supermercado e, mesmo assim, noto que ainda me restam cerca de 40% de bateria.

A volta é a descer e, ao contrário de outros camiões onde devemos privilegiar o uso do travão motor (ou retarder) ao invés do travão de pedal, neste G320 híbrido temos de agir de forma contrária. A travagem é regenerativa, ou seja, ao travarmos com o pedal o camião recarrega as baterias, por isso conduzi o camião a descer o bairro da Icesa, sempre a potenciar as baterias. Mas este carregamento tem um limite. A partir de uma determinada pressão no pedal de travão, o camião já não gera eletricidade, dando prioridade à segurança, funcionando assim os travões nas rodas a 100%.

Para sabermos se estamos a travar “a mais”, aparece no painel de instrumentos uma luz laranja, e se a travagem estiver a recarregar a bateria, aparece uma luz verde. De facto, muito simples.

Autonomia

Sem entrar em mais detalhes técnicos, durante a condução foquei-me em conseguir recarregar o máximo possível da bateria nas travagens, e ter uma aceleração constante, mas sem conduzir devagar. Conduzi na mesma velocidade do fluxo do trânsito da região. Como escolhi um percurso sinuoso e com topografia variada, calculei que a autonomia em modo 100% elétrico ficasse abaixo do anunciado pela marca: 10km.

No entanto, o percurso que tinha pensado já se tinha esgotado (passei por 8 supermercados!), mas a autonomia do camião ainda não… Assim sendo, continuei a conduzir para ver até onde a autonomia me levava. Nessa viagem deu para sentir que os 177cv do motor elétrico são suficientes para as cerca de 20 toneladas de peso total, que o camião tinha neste teste.

A condução focada no aproveitamento energético, na travagem regenerativa, na utilização da inércia e numa aceleração progressiva, resultou nuns impressionantes 17,6 km de autonomia em modo 100% elétrico. Publico aqui o mapa do percurso, bem como a oscilação de altitude deste percurso. Foram 40 minutos de condução em que o motor a diesel não ligou, tempo este em que perdi a conta ao número de supermercados por onde passei (nessa quilometragem, não estão incluídas manobras de estacionamento nos supermercados).

Se tivermos em conta que iniciei o teste com 90% de bateria, 17.6 km de autonomia em condições reais de trabalho (temperatura média do ar de 15o C), é uma autonomia muito acima do expectável para este camião.

Coincidência ou sorte, a autonomia acabou mesmo à entrada de uma autoestrada. Sem poder usar mais o motor elétrico, aproveitei então para testar o motor a diesel. Neste campo, nada a apontar, os 320cv deste motor 9 litros são capazes de responder às solicitações necessárias, bem como é de realçar o baixo ruído deste motor: apenas 80 decibéis.

Na condução em autoestrada confirmei aquilo que pensei no início do teste – este é um camião polivalente, com qualidades e comodidades para viagens intercidades. Destaco uma funcionalidade interessante: quando estamos a conduzir com o motor a diesel, é possível optar se o motor elétrico deve dar uma “ajuda” ao motor diesel (diminuindo os consumos de combustível), ou se aproveitamos a energia da viagem para carregar a bateria. Optei pela segunda.

Assim, passados exatamente 20 minutos de condução em autoestrada a 85km/h, fiquei com 100% da bateria carregada. Isto quer dizer que poderia novamente entrar na cidade e conduzir mais cerca de 17 km em modo 100% elétrico.

Finalizado o teste, tornou-se claro que este Scania G320 híbrido é um camião ideal para uma utilização inter e intra urbana, principalmente à noite, onde o motor elétrico irá proporcionar um melhor descanso às populações. A única coisa deste Scania G320 híbrido que pode atrapalhar o sono é…o seu preço, que apesar de ainda não ter sido divulgado, é provável que cause espanto a alguns gestores de frota mais conservadores.

Empresários precisam de atualização e reciclagem

No meu caso, fiquei surpreendido pela positiva pelas capacidades técnicas deste modelo, pelo conforto e segurança que proporciona ao motorista. Consegui ultrapassar a autonomia elétrica que a marca anunciava por isso finalizo o teste com o sentimento de dever cumprido e de superação. Tendo em conta que acabei este teste à noite, assim que cheguei a casa tive aquilo que se chama o “sono dos justos”.

Mas não foi por muito tempo. Um camião de recolha de lixo acordou-me a meio da noite com o seu habitual chinfrim, como se tivesse que apregoar o seu trabalho, com um megafone instalado no seu motor diesel (versão Euro3 provavelmente), desregulado e fumarento. Aí apercebi-me que, ao contrário dos países do norte da Europa, os camiões híbridos deverão demorar muito tempo a chegar ao serviço de recolha de resíduos.

Os gestores dessas empresas, desmerecem e desvalorizam o seu próprio serviço, optam por camiões baratos, velhos e ruidosos para um serviço que eles consideram “inferior”.

Concluo com a reflexão de que além da evolução tecnológica dos camiões, é preciso uma mudança de mentalidade e de cultura na gestão das frotas, para que as cidades possam verdadeiramente usufruir das propulsões alternativas, como é o caso deste Scania G320 híbrido.

Texto e teste: Eduardo Gaspar

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