Scania V8 – 50 anos passaram bem rápido

by on 1 Outubro, 2019 in Pesados

Scania V8 – 50 anos passaram bem rápido

Teste e texto: Eduardo Gaspar

“Never late with a V8” – nunca atrasado com um V8. Este é um dos lemas do Scania V8. O tempo é algo essencial para este modelo, quer na velocidade que percorre as estradas deste mundo, quer na rapidez com 50 anos se passaram desde 1969, ano em que foi apresentado o primeiro motor V8 da Scania no salão alemão IAA.

Passados 50 anos, a marca decidiu comercializar uma série especial comemorativa do V8, e fui testá-la às instalações da Scania em Alverca. Foi a primeira vez que conduzi um Scania V8.

Apesar de este ser um modelo bem conhecido no mercado, não gosto da frase “dispensa apresentações”. Quanto mais um modelo tem história e relevância, mais deve ser apresentado. Claro que resumir 50 anos de história em pouco espaço é complexo, principalmente porque o V8 da Scania tem uma envolvência emocional que supera todos os outros modelos. É muito positivo quando uma marca celebra o seu passado, e dá-lhe continuidade.

Na passagem para a norma Euro 6, outras marcas de camiões que tinham motores V8 acabaram por descontinuá-los. Era muito dispendioso fazer com que um motor, com as características de um V8 conseguisse, atingir os standards Euro 6. A Scania investiu e conseguiu. A explicação técnica das vantagens entre um motor V8 e um motor em linha, deixo-a para os engenheiros…e entusiastas.

Do ponto de vista de mercado e da história, o facto é que o motor V8 representa, tanto para a Scania, como para os seus clientes (motoristas e transportadores), um modelo icónico. Nota-se um orgulho, em quem tem e conduz, um V8. É um camião desejado. Tem reputação. Desde a estética imponente até ao ruido do motor, o V8 é “o camião” da Scania, e não “um camião”.

Teste da versão especial

Nas instalações da Scania em Vialonga, o V8 espera-me para o teste. O modelo é um camião prateado, majestoso. Tem porte. E 40 toneladas de peso total. Em jeito de apresentação, antes de entrar na cabine, fico por algum tempo a olhá-lo. Como quem olha um touro, antes de o montar para um rodeo. Tal como um reputado touro, este V8 tem um nome – Invictus. Por serem versões especiais, a Scania dá nomes aos seus camiões de teste para a imprensa.

Subo para a cabine S Highline (a maior da Scania) e, o fechar da porta é tão suave que a fera não parece tão ameaçadora. Mas isto, até ligar o motor, que tem um funcionamento único. O ruído deste V8 demostra, em cada som que faz, a sua potência de 650 cavalos e a força de 3300NM. Por esse motivo num V8 não se arranca logo. Temos de ficar mais algum tempo no posto de condução, até que o nosso corpo se habitue ao “animal”, e o “animal” se habitue à nossa presença. Estou ali para o comandar e, por isso, nada melhor do que conhecer todos os seus recantos antes de o levar para a estrada.

O conhecer da cabine é uma descoberta de um mundo de detalhes. Esta versão comemorativa tem extras que nunca mais acabam. Pespontos, couros, cromados, arrumos, entre muitos outros pormenores. Com a cabine configurada para um motorista (ao invés de dois), a segunda cama dá lugar a um compartimento de arrumação extra. Enquanto descubro os detalhes do seu interior, já com o motor a trabalhar, a minha pulsação acaba por harmonizar-se com a rotação do motor. Entramos em sintonia, um com o outro. Homem e máquina.

Mikael Jederud, Press Test Officer da Scania Suécia que acompanhou-me no teste, disse que eu poderia fazer o percurso que bem entender. Não me intimidei. Ter carta-branca do experiente Sueco para comandar este V8 (por onde bem eu quisesse), deu-me ainda mais moral. Além da pulsação, agora o meu ânimo também equivalia ao do V8. Com as forças equilibradas, é hora de soltar o animal.

Os primeiros metros são feitos a sair de um local apertado e apinhado de carros estacionados. O V8 contrariou a expressão inglesa de “um touro numa loja de porcelanas”, e comportou-se com suavidade, num ambiente propício a passarmos a tarde a preencher declarações amigáveis. Passado o perigo inicial, entramos na estrada nacional e já respiramos liberdade. Este camião é feito para andar livre.

Preferi fazer os primeiros quilómetros em modo “Eco”. Mas assim que entro na autoestrada e inicio a subida da CREL, aciono o modo “power” e acelero a fundo. Aí está ele! O V8 mostra que merece a reputação que o precede. Fiz a subida da CREL em velocidade constante (75km/h), carregado com as 40 toneladas, como se nada fossem. Nestas condições, o ruído do motor V8 assume outras proporções. A minha pulsação também sobe com as rotações. É este o ambiente do V8, ele gosta de se exibir, de mostrar toda a sua força.

Depois da íngreme subida, e passado o momento do auge, é tempo de baixar os níveis de adrenalina e pensar nos consumos. Sim, o V8 também tem de sistemas de assistência à condução para minimizar os consumos. Ajusto o cruise control em modo “eco”, e o sistema além de ser gerido pela topografia do terreno (ou seja, é preditivo), também se torna adaptativo ao veículo que vai à frente.

Digo veículo porque o radar deste V8 reconhece a diferença entre um carro e um camião. Aparece na infografia do painel de instrumentos se for um carro e, no caso de ser um camião ele assume automaticamente a função de platooning (surge a imagem de uma “corrente”, no painel de instrumentos).  Apesar de toda a potência e força do motor V8, a viagem realizada em autoestrada é bastante confortável e nota-se pouco ruido na cabine, sobretudo graças ao bom funcionamento do sistema “eco roll”.

Vantagem da rapidez

Tinha em mente um percurso – ir ao MARL e voltar à Scania. Mas como o V8 fez o trecho mais rápido do que estava à espera (era a minha primeira vez num V8 como disse…), acabei por alongar o itinerário. Ir a Oeiras e voltar. Sem problemas. Mesmo em modo “eco”, o V8 é rápido nos percursos, e é essa uma das razões para muitas empresas o escolherem – a rapidez.

No percurso de volta, agora a descer a CREL, a capacidade do retarder em segurar este V8 foi exemplar. Desceu a 90km/h constante, em total segurança, apesar dos ventos fortes que o dia nos proporcionou. Saindo da autoestrada, optei por testá-lo numa estrada montanhosa e, novamente o V8 deu mostras de que gosta de estradas íngremes. Os seus 3300NM fazem toda a diferença neste ambiente.

Já em percurso citadino, este V8 não se sente muito à vontade. O pára-arranca do trânsito que enfrentamos no caminho de volta à Scania, mostrou exatamente isso. Pelo menos, no modo “normal”. Dá pulos e solavancos como um touro que se sente preso e quer passar por cima dos carros que estão à sua frente e, assim, voltar a ser livre.

Conjunto propulsor eficaz

Para “amansar o animal”, basta colocar a caixa de velocidades no modo “Am” que significa o modo de manobra, em português. A reação de todo o conjunto propulsor fica muito mais suave, sendo possível irmos até à 6ª velocidade, mantendo este mesmo modo de condução. O que significa ser possível percorrermos vários quilómetros de trânsito com suavidade. O modo “Am” não serve apenas para manobrar, mas também para se conduzir, com suavidade e segurança, em cidade.

De destacar o travão automático que funciona muito bem no trânsito e, inclusive quando estamos nos semáforos. Se ficarmos mais de 3 segundos com o pé no travão, o camião emite um sinal sonoro e passar a estar travado, automaticamente. Podemos tirar o pé do travão que ele fica travado o tempo que for preciso. Para arrancar, basta voltar a carregar no acelerador.

Testado nos vários ambientes e depois de 2h30 de condução, é preciso entregá-lo de novo à base da Scania, em Vialonga. Fico com a sensação de que se conduzisse por 10 anos este camião, não me iria aborrecer. Agora percebo porque alguns motoristas tatuam no corpo, o logotipo do V8.

É uma relação homem-máquina que é difícil explicar através de palavras, mas faz-se por sentimentos mútuos. Se o soubermos conduzir, o V8 retribui-nos com produtividade e afeto. Entrego o camião e despeço-me da mesma forma como nos apresentámos – saí e fiquei algum tempo a olhar para ele. Havemos de nos reencontrar.

Conclusões

Este V8 consegue conjugar extremos, num mesmo modelo: a elevada potência e força, com conforto e uma certa economia de combustível. O conforto e detalhes da cabine, em conjunto com os sistemas de assistência à condução, permitem uma viagem tranquila. Claro que o fator de escolha de um V8 não são os consumos. Mas durante o percurso, o meu co-driver explicou-me uma série de truques de condução para se conseguir poupar nos consumos, sem perder as capacidades de trabalho deste V8. Vale a pena investir num curso de condução. Conseguir domar um brutamontes destes a ponto de o fazer gastar pouco combustível, é para poucos.

O Scania V8 650 é um camião que gosta de trabalho. É daqueles tipos robustos que, para descontrair do serviço, carrega sacos de cimento ou arruma o armazém. Faz isso com um sorriso no rosto. Dêem-lhe trabalho, e dos duros. É animal de labuta. Mas sem explorações, com dignidade. Afinal de contas, este é um V8. Ele gosta de respeito. E merece-o.

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