Tempestade elétrica – nova Renault Master Z.E.

by on 9 Abril, 2018 in Frotas

Tempestade elétrica – nova Renault Master Z.E.

Por vezes as tempestades aproximam-se de forma silenciosa, sem grande alarido: é o caso da Renault Master Z.E. que teve a sua apresentação mundial, recentemente realizada em Lisboa.

O evento decorreu, de forma discreta, no Tagus Park em Oeiras. Neste conglomerado de escritórios, a Master Z.E. não perturbou, nem causou alarido aos milhares de profissionais que lá trabalham. Os furgões brancos, dispostos sem luzes, confetes e serpentinas, integravam-se no ambiente, como se dele já fizessem parte.

Tipicamente, nestas apresentações, 80% do tempo gasto nos discursos é dedicado à vangloriação, autopromoção e às inovações em escala planetária. Principalmente, quando se trata de um modelo para um segmento de mercado com propensão ao crescimento exponencial – como é o caso da Master Z.E. Contrariamente a esta prática corrente, a Master Z.E. foi apresentada em sucintos 10 minutos, cingindo-se ao essencial: conjunto propulsor, especificidades de carregamento, autonomia e gestão de frota. Relevante, clara e objetiva.

Questionado por esta atitude mais low profile, Dominique-William Jacson, press officer dos comerciais ligeiros da Renault, respondeu-nos que “não é que queiramos passar desapercebidos – caso contrário não teríamos feito esta apresentação internacional a jornalistas e frotistas – mas é que todo o nosso trabalho está concentrado em colocar o Master Z.E. o mais rapidamente no mercado. Isto implica em abdicar de certas coisas como um certo show à volta do lançamento. Queremos ser os primeiros do mercado com uma solução real para as frotas, a começar pela distribuição urbana”.

Quanto aos dados, e a começar pelo conjunto propulsor, o motor elétrico R75 da Master Z.E. é o mesmo do ZOE e do Kangoo ZE, que desenvolve uma potência de 57 kW (76 cv) com tração dianteira. A bateria de 33 kWh, de ião-lítio, proporciona uma autonomia real de 120km. A carga completa é obtida em 6 horas com a WallBox 32A / 7,4 kW.

O conjunto propulsor elétrico foi incorporado na base do Renault Master a diesel, o que significa que todos os componentes do chassis, cabine e exterior da Master Z.E. são exatamente iguais à Master a diesel. As versões disponíveis da Master Z.E, incluem 3 comprimentos e 2 alturas, e versões chassis-cabine com 2 comprimentos.

Teste em estrada

Depois das apresentações e enquadramento estratégico, vamos ao teste em estrada. O percurso com cerca de 70 km incluiu trechos em cidade, estradas nacionais e a serra de Sintra. O primeiro sentimento quando entramos na Master Z.E. é que pouco ou nada difere da Master a diesel. Tanto a cabine como o tablier são iguais, à exceção do painel de instrumentos que indica a autonomia e a carga da bateria. Para um carro 100% elétrico esperava-se algo diferente, mas também é compreensível que o time-to-market esteja em primeiro lugar e a estética em segundo. Afinal de contas é um carro de trabalho.

Os primeiros quilómetros ao volante denotam um conforto excecional. Sem o incómodo de ter que engrenar velocidades e sem o ruído de um motor a diesel, este furgão proporciona uma utilização ímpar no seu segmento, sendo muito agradável a condução. A diferença de potência do motor elétrico face a uma versão diesel de 150cv é notória, mas contornável com uma condução que utilize mais a inércia, e que seja mais atenta à antecipação. Ou seja, uma entrada numa rotunda tem de ser bem calculada, pois apesar de arrancar rápido, o furgão demora um pouco a desenvolver pelo que o estilo de condução deve ser mesmo adaptado.

Capacidade de carga

O estilo de condução reflete naturalmente na autonomia da bateria, mas menos do que esperávamos. O veículo que testámos estava carregado com 400 kg (a capacidade de carga da Master Z.E. é de 1100kg nesta versão) e os 120km de autonomia divulgados, são mesmo reais. Percorremos 15km com uma condução “menos ecológica” em cidade, e a auto nomia da bateria evidenciava 109km disponíveis (ver foto!). Em todo o caso, durante o percurso ainda conseguimos carregar uma dezena de quilómetros na bateria ao aproveitamos as descidas da serra de Sintra. Além disso, encontrámos um posto de carregamento no caminho e testamos a facilidade com que se carrega a bateria.

Apesar de atingirmos os 100km/h com a Master Z.E., a progressão da velocidade faz-se gradualmente, o que não dá muita margem para ultrapassar outros veículos em segurança; Mais vale não arriscar e usufruir da viagem.

Estacionamento e trânsito

Também testamos a capacidade de estacionar, onde a câmara de filmar traseira dá uma grande ajuda, e a suavidade da transmissão do binário para as rodas permite subir os passeios sem patinar. O mesmo aconteceu em terreno pedregoso e em terra-batida, onde arrancámos sem patinar. Isto pode significar um desgaste menor nos pneus, pois bem sabemos como os motoristas de distribuição urbana adoram arrancar a fundo para patinar os pneus.

O percurso de volta a Oeiras foi condicionado pelo encerramento da avenida Marginal, devido à forte ondulação que assolou a costa, o que causou um desvio e subsequente trânsito lento. Foi muito bom.

Descobrirmos que este é o furgão ideal para o trânsito. Não desgasta o condutor com o engrenar constante da 1ª e 2ª velocidade, e a ausência de ruído (do motor a diesel) na cabine proporciona um conforto acima da média. O facto de não consumir combustível, no pára-arranca, é também um bom argumento ecológico.

Conclusões

Um ponto a melhorar será a alavanca das “mudanças”, que só contém as posições N (neutro), D (drive) e R (reverse), ficando a faltar o P (parking). É muito fácil estacionar e deixar o furgão “engrenado” no Reverse (marcha-atrás). Outros pontos a melhorar são, naturalmente, a autonomia e investir um pouco mais na estética interior e exterior.

Contrariamente a outras marcas (como a Tesla por exemplo), que muito dizem e pouco provam, no âmbito dos veículos comerciais elétricos, os modelos da Renault existem, funcionam e são postos à prova para ser testados, avaliados e criticados. Com isto, a Renault é assim a primeira marca automóvel a ter uma gama de comerciais ligeiros elétricos disponíveis e operacionais, desde o derivado de passageiros (como o ZOE), passando pelo pequeno furgão com o Kangoo Z.E. (nas suas várias versões e comprimentos), até ao grande furgão com a Master Z.E.

Não temos dúvidas que, silenciosamente, a Master Z.E. traz consigo os ventos fortes de mudança, no que diz respeito à utilização dos grandes furgões elétricos nas cidades. Pelas suas características técnicas começa por um segmento restrito – a distribuição urbana. No entanto, começa, e isso é o mais importante.

Os próximos trarão evoluções tecnológicas e características técnicas/estéticas mais elaboradas, que aliadas a um expectável crescimento do mercado dos furgões elétricos, poderá marcar um ponto de viragem na história. Aconteceu, foi em Portugal e a Automotive registou este início de uma nova era.

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