Trotinetes elétricas – poluentes e obsoletas?

by on 11 Maio, 2020 in Frotas

Trotinetes elétricas – poluentes e obsoletas?

Já fazia falta uma pesquisa alargada sobre o impacto das trotinetes elétricas e seus efeitos nas cidades. No “Un estudio defiende que los patinetes eléctricos son más contaminantes que ir en autobús o en moto”, Marta Villena do El País, questiona se serão a alternativa perfeita para alcançar uma mobilidade sustentável nas cidades?

Também a Universidade da Carolina do Norte num estudo publicado na revista Environmental Research Letters, (Joseph Hollingsworth et al 2019, Environ), usando como objeto de estudo as empresas de aluguer de trotinetes elétricas (Lime e Bird ) na cidade de Raleigh (Carolina do Norte, EUA), comprovaram que a vida útil dos VMPs é muito menor do que os fabricantes declaram, que é em média, de dois anos. O mau uso e o vandalismo, fazem com que essas trotinetes não durem mais de dois meses. O que isso significa? A necessidade de fabricação de mais unidades – mais impactos negativos.

Mais emissões

No caso dessas duas empresas – que também operam na Espanha – as trotinetes elétricas são fabricadas na China e chegam aos países utilizando diferentes meios de transporte poluentes. Além disso, a fabricação de novas unidades envolve a extração de mais matérias-primas, dentre elas o alumínio, por exemplo.

O estudo também explora o processo de recolha das trotinetes elétricas realizadas por trabalhadores externos – com seus próprios veículos – conduzindo pela cidade todas as noites para recolher as trotinetes, levá-las para um local onde possam ser carregadas (de eletricidade) e distribuí-las novamente nas ruas para serem usadas na manhã seguinte.

Os pesquisadores calcularam as emissões de CO2 usadas para fabricar, transportar, carregar e transportar dentro da cidade esses VMP, comparando o resultado total em milhas por pessoa com as emissões de outros meios de transporte. E concluíram que as trotinetes elétricas poluem mais do que um autocarro público com passageiros a bordo, por exemplo.

Por meio de um comunicado à imprensa, a empresa Lime respondeu ao estudo: “Agradecemos a pesquisa sobre os benefícios ambientais das novas opções de mobilidade; no entanto, este estudo se apoia fortemente em suposições e dados incompletos que produzem grande variabilidade nos resultados. Acreditamos que a micro mobilidade reduzirá a poluição e mitigará as mudanças climáticas.”

Espanha

Na opinião de Adrián Fernández, coordenador de mobilidade do Greenpeace Espanha “em analogia, as conclusões deste estudo são perfeitamente aplicáveis ao nosso país. O ciclo de vida é o mesmo, então o impacto ambiental será o mesmo, até porque as empresas citadas no estudo operam em grandes cidades como Madrid ou Barcelona”. Somente na capital espanhola, estão registadas 19 empresas de aluguer de trotinetes elétricas, com um total de 8.236 trotinetes distribuídas pelos diferentes distritos da cidade (dados referentes a agosto de 2019).

Corroborando a posição do Greenpeace, o “Barómetro do Ciclista Urbano de Barcelona 2019”, elaborado pelo RACC (Royal Automobile Club da Catalunha) destaca que o uso do VMP multiplicou-se quase quatro vezes em relação ao ano anterior.

Por sua vez, a Fundação Mapfre apresentou também um estudo realizado em várias cidades espanholas (Madrid, Barcelona, Valência, Sevilha, Málaga, Vitória, Cáceres e Benidorm). Destaca que os utilizadores dos VMPs são principalmente do sexo masculino (61% versus 39% do sexo feminino), com média de idade de 37 anos, sendo que 85% possui um automóvel. O estudo acrescenta ainda que, 75% dos usuários de VMP utilizam todos os dias o carro como meio de transporte para o trabalho ou como meio geral de transporte.

Desconforto ambiental

Voltando ao estudo de Hollingsworth (Universidade da Carolina do Norte), este também incluiu as respostas dos utilizadores de VMP sobre qual opção escolheriam se não houvesse trotinetes elétricas disponíveis. Quase 50% responderam que andariam de bicicleta, 34% usariam carro próprio, 11% iriam de autocarro e 7% simplesmente não se deslocariam.

Hollingsworth não critica apenas o impacto ambiental dos VMPs, mas também fornece uma série de recomendações para essas empresas e as cidades em que operam, como formas de agilizar o seu processo de coleta e redistribuição, bem como estratégias para estabelecer políticas contra vandalismo de forma a prolongar a vida útil das trotinetes, evitando novas fabricações.

Neste ponto, Adrián Fernández (da Greenpeace Espanha) acrescenta também que “a má administração de algumas dessas empresas, bem como a falta de regulamentação do Estado estão a causar um desconforto generalizado nas populações citadinas, que convivem diariamente com as trotinetes elétricas”.

Modelo obsoleto

A introdução de trotinetes elétricas nos grandes centros urbanos não é novidade. Segundo o National Museum of American History (NMAH), o conceito da trotinete elétrica remonta a 1817 através do Barão Karl von Drais de Sauerbrun (Alemanha). Os modelos do Barão foram progressivamente melhorados, sendo no ano de 1895 dá-se o início da comercialização em massa nos EUA, por Ogden Bolton Jr.

Com o nome comercial de Autoped, as trotinetes autopropulsoras tomaram conta das cidades no início de 1900, constituindo uma moda entre os mais abastados da sociedade, como comprova a imagem de Lady Norman Florence (abaixo), que se deslocava ao trabalho com uma trotinete elétrica, em Londres de 1916.

Nos arquivos do NMAH, consta que as trotinetes motorizadas foram inclusive utilizadas pelos serviços postais de várias cidades dos EUA. No entanto, vários problemas com a sinistralidade e a constante violação das regras por parte dos utilizadores de trotinetes, fizeram as cidades começarem a proibir a utilização desses veículos.

Por fim, é Erwin Tragatsch (historiador) que nos desvenda o fim das trotinetes elétricas, ocorrido nas primeiras décadas do século XX. No seu estudo intitulado Zeugen der Motorradentwicklung, Tragatsch conclui que “as trotinetes motorizadas acabaram porque o modelo de negócio não era comercialmente sustentável. Nenhuma empresa conseguiu lucros com as trotinetes e gradualmente foram abandonando o negócio”.

Mau uso e o vandalismo, mais matérias-primas, 75% dos usuários de VMP utilizam todos os dias o carro, desconforto generalizado nas populações citadinas, sinistralidade e a constante violação das regras; a soma destes fatores de certeza não dará resultados positivos.

Mas se a matemática não esclarece, a história explica que: não é novidade, não passou de uma moda e não deu lucro significativo. Para quem faltou às aulas de história, fica o discernimento: se fosse bom, não inventavam o metro, o comboio e o autocarro, entre outros.

 

Texto: Eduardo Gaspar Fotos: Paul Thompson/Gerahrd Julien/Getty

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