Carros a diesel não terão valor daqui a dois anos?

by on 29 Abril, 2021 in Frotas

Carros a diesel não terão valor daqui a dois anos?

“Quem comprar carros a diesel não terá valor na troca daqui a quatro anos”, declarou o Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Transição Energética, numa entrevista ao Jornal de Negócios em janeiro de 2019. Estas suas declarações, foram depois repetidas pelo próprio em outros meios de comunicação o que, naquela altura, gerou uma acesa polémica, entretanto já quase esquecida.

Faltando cerca de dois anos para a efetivação da dita “profecia”, fomos tentar perceber se as afirmações do Ministro do Ambiente em 2019, estão afinal alinhadas com a realidade em que vivemos no mercado automóvel, ou se a mesma irá concretizar-se no futuro mais imediato.

Para tanto, convidámos Pedro Nuno Ferreira, Head of Automotive Financial Services do BNP Paribas, e Miguel Vassalo, Country Manager da Autorola, para comentarem respetivamente os mais recentes estudos apresentados pelo BNP Paribas (Observador Cetelem Automóvel 2021) e também pela Autorola (14º relatório do Observatório INDICATA), à luz das declarações do ministro do Ambiente, Matos Fernandes.

Pedro Nuno Ferreira fez-nos uma explicação extensa do estudo, da qual destacamos o foco sobre os automóveis diesel. Este especialista comenta-nos que “é de assinalar a tendência natural para o mercado de usados registar um crescimento quando o contexto económico é particularmente adverso, o que foi o caso de 2020.

No estudo Observador Cetelem Automóvel 2021, verificámos também que, entre os inquiridos que tencionam comprar uma viatura este ano, 25% consideram a compra de veículos usados, sendo a grande maioria da oferta a gasolina e diesel. Paralelamente, neste momento, o setor automóvel está numa fase de reinvenção.

No que respeita ao mercado de carros novos de combustão interna pura, sejam estes a diesel ou a gasolina, com motores altamente eficientes do ponto de vista das emissões de CO2 e de partículas, este continua a desenvolver-se e a ter os dois lados, a oferta e a procura, bastante ativos.

Do lado da procura, os clientes preferem motorizações a combustão interna pura, por norma percorrem distâncias longas e por isso confiam mais neste tipo de motorizações. São sobretudo particulares, que aguardam que as motorizações elétricas puras e híbridas, na sua perceção, se estabilizem tecnologicamente, e assim justificar a sua mudança de intenção de compra.

Já do lado da oferta, as marcas continuam a ter parte da sua capacidade industrial orientada para este tipo de motorizações (a combustão interna) e a disponibilizá-las no mercado.

Por fim, o mercado de carros usados a diesel mantém-se ativo na Europa. Há oferta do lado dos construtores, operações de remarketing de curta e de longa duração, com boas condições comerciais e de financiamento para os clientes. Ainda do lado da procura, existe uma apetência natural para se tirar partido das boas oportunidades, sobretudo por parte dos clientes particulares, que necessitam de uma utilização mais intensiva da sua viatura”, comentou-nos Pedro Nuno Ferreira.

Desequilíbrios entre a oferta e procura

Relativamente aos resultados do 14º relatório do Observatório INDICATA, e dentro da temática dos usados diesel, Miguel Vassalo comentou-nos que “quando olhamos agregadamente para os números da Europa, o diesel representa um pouco menos de 50% das vendas de usados.

Acompanhando a tendência observada na venda de veículos novos, o peso do diesel tem vindo gradualmente (ainda que sem qualquer sinal de disrupção) e consistentemente a diminuir nos últimos dois anos, cifrando-se esta diminuição na ordem dos 8%, entre janeiro de 2019 e janeiro de 2021.

Em Portugal, o diesel continua a representar ainda a maior fatia na venda de usados. Apresenta, no entanto, a mesma tendência descendente observada na Europa, tendo o seu peso relativo, no mesmo período, diminuído em 14% (uma diminuição em linha com a de outros mercados, onde o diesel ainda representa mais de 50% das vendas, como por exemplo o austríaco, espanhol e italiano)”, refere.

Ao analisarmos o Observatório INDICATA, notámos uma rotação de stock 5.3x na Europa para os veículos usados diesel (no ano de 2020). Isto significa uma maior preferência do consumidor por esta tipologia de veículo, face a outras motorizações?

Miguel Vassalo responde-nos que “a rotação de stock a cada momento é o resultado das dinâmicas entre a oferta e a procura. Assim, o valor absoluto da rotação de stock não permite concluir diretamente o que refere.

Como temos reportado no Observatório INDICATA, grande parte de 2020 foi caracterizado por limitações do lado da oferta pelo que estamos em crer que este foi o fator preponderante no aumento dos valores de rotação, sinalizando desequilíbrios entre a oferta e a procura. Este aumento foi transversal aos vários tipos de motorizações e o desequilíbrio entre a oferta e procura fez-se particularmente sentir nas motorizações a gasolina e a diesel” resume Miguel Vassalo.

Parece assim, que desmentir publicamente o ministro Matos Fernandes é um caminho que poucos querem enveredar, provavelmente pela complexidade dos dados em questão, que por um lado resultam da análise de anos bastante atípicos (pandemia e desequilíbrio na oferta de viaturas), e por outro lado num mercado automóvel que constantemente apresenta novos rumos tecnológicos, com as suas incertezas associadas.

Contudo, as vendas de veículos novos ligeiros no primeiro trimestre de 2021 em Portugal, por tipologia de energia (motorização), registaram 15147 matriculações de veículos ligeiros a diesel (39,8%), contra 13350 matriculações de veículos ligeiros a gasolina (35%), segundo os dados oficias da ACAP.

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