Mais de 700 pneus abandonados foram recolhidos em Caxias

by on 9 Agosto, 2021 in Frotas, Pós-Venda

Mais de 700 pneus abandonados foram recolhidos por um grupo de voluntários em Caxias, concelho de Oeiras. O grupo denomina-se Guardião do Oceano, e é liderado por Gil Rosa (foto acima). A Revista Automotive esteve no local da recolha e entrevistou Gil Rosa, que nos conta mais sobre o âmbito desta ação.

“Para contextualizar, o grupo Guardião do Oceano, é uma iniciativa que surgiu há cerca de dois anos porque eu vivia perto do mar e quando ia à praia passear, encontrava tanto lixo que comecei a ter o hábito de o recolher. Assim, além do meu relaxar junto à praia, percebi que poderia contribuir para o ambiente, neste meu passeio.

Desde o início, sempre pesei todo o lixo recolhido. Em cerca de um mês cheguei a recolher cerca de uma tonelada de lixo e foi, a partir daí, que decidi criar um grupo com aqueles que me são mais próximos para juntos, dinamizarmos este tipo de ações. Foi assim que começámos, com ações nas praias e junto às arribas.

Espontaneidade

Além das ações em orla costeira, e porque o grupo Guardião do Oceano veio a aumentar gradualmente, começámos a receber mensagens de várias pessoas a alertar-nos de outras zonas com lixo, como sendo florestas e até locais no centro da cidade – como foi o caso de Torres Vedras onde recolhemos quase 5 toneladas com mais de 400 televisões, monitores e outros aparelhos eletrónicos.

Esta evolução do grupo foi espontânea, apesar de termos começado com alguns amigos, já chegámos a ter mais de 700 pessoas envolvidas nas diversas ações do grupo, que totalizaram mais de 39 toneladas de resíduos recolhidos até à data. Neste momento, o Guardião do Oceano é apenas uma iniciativa, não somos nenhuma associação, até porque todos os integrantes do grupo são todos voluntários e trabalham em áreas muito distintas.

Sou estudante de doutoramento em atividade física e saúde, e encaro estas iniciativas do grupo como uma conjugação entre atividade física e sustentabilidade. Levantar pneus, como foi o caso de Caxias, tem um sentido diferente do que se for feito num ginásio. Promovemos uma atividade física com uma componente ambiental.

Atuamos de três formas. A principal é definir uma praia ou zona costeira com maior necessidade de intervenção e depois realizar as ações. A segunda forma é a procura ativa através do Google Earth para encontrar resíduos de despejos ilegais - como parece ter sido o caso aqui em Caxias. A terceira forma é através de mensagens de voluntários ou pessoas que através das redes sociais, nos contactam a informar destas situações.

Todos podem juntar-se a nós nas ações de recolha, a única coisa que pedimos é que não sejam menores de idade desacompanhados. Todos os voluntários são bem-vindos e tentamos sempre conjugar a apetência física de cada um, ao contexto em que vamos realizar a recolha, para que todos participem em segurança.

Proximidade com as autoridades locais

Como começámos as ações do grupo com os resíduos de praia, era fácil fazer a separação dos resíduos e colocá-los diretamente nos contentores. À medida que fomos nos deparando com uma crescente quantidade de resíduos específicos, passámos a necessitar de intervenção por parte das Câmaras Municipais e das Juntas de Freguesia, entidades quem nos tem mais apoiado. Têm-nos ajudado no transporte dos resíduos e também na cedência de consumíveis, como os sacos de lixo, por exemplo.

Recolha em Caxias

Estamos assim sempre em contacto com as Câmaras e Juntas, e neste caso em concreto de Oeiras tivemos o apoio da Câmara Municipal nos consumíveis. Entretanto, notamos alguma lentidão em recolher os resíduos.

Mas quem está no “terreno”, sabe que as câmaras municipais e as juntas de freguesia não conseguem estar em todo o lado e acudir a todas as solicitações que os munícipes têm nas diversas áreas de atuação. Por isso existe uma grande compreensão de parte a parte, e assim nos ajudamos mutuamente.

Esta recolha realizada no Concelho de Oeiras, ocorreu em duas fases. A primeira quando me desloquei a este terreno baldio, que tem acesso livre, e fiz uma recolha de 220 pneus que estavam próximos da estrada. Entretanto, constatei que havia muitos mais pneus e isso acabou por ser o mote para criar esta ação.

Procedemos à marcação do evento, e tivemos uma boa adesão que totalizou 33 voluntários de diversas idades e proveniências geográficas. A acessibilidade do terreno foi fácil porque está junto a uma estrada, mas foi um dia bastante duro de recolha com temperaturas elevadas. Graças à ajuda de todos, conseguimos recolher cerca de 700 pneus, entre outros resíduos automóveis.

Pela nossa atividade já temos um conhecimento sobre as diversas entidades gestoras de resíduos. É o caso da Valorpneu com quem já tínhamos trabalhado em outras ações. Neste caso de Caxias, pelo volume de pneus recolhidos, solicitamos à Camara Municipal de Oeiras para proceder à recolha e encaminhamento dos pneus para um operador da Valorpneu”, conclui Gil Rosa.

Rede de receção de pneus usados

Contactada pela Revista Automotive, Climénia Silva, diretora geral da Valorpneu, referiu-se a este caso de recolha voluntária comentando que “é louvável o trabalho realizado pelo grupo de cidadãos Guardião do Oceano, na preservação e sensibilização para um ambiente melhor.

A Valorpneu está sempre aberta através da sua rede de Centros de Receção para rececionar e reciclar os pneus em fim de vida que resultam destas ações de limpeza. Recentemente também colaborámos com a Brigada do Mar numa ação semelhante, em Palmela, e recebemos pneus usados de um terreno baldio por parte da Câmara de Oeiras.

O que é lamentável é que haja cidadãos que tendo disponível, de forma gratuita, uma rede de receção de pneus usados, os deixem ao abandono ou os descarreguem intencionalmente no ambiente sem qualquer preocupação. Neste âmbito, o trabalho das entidades de inspeção também deveria ser mais assertivo e penalizador para os infratores” referiu Climénia Silva.

Procedimentos a ter na recolha voluntária

Para nos explicar quais os procedimentos e cuidados que os cidadãos devem respeitar na recolha voluntária de resíduos automóveis, a Revista Automotive (RA) contactou Joana Baptista (JB), Vereadora da Câmara Municipal de Oeiras, responsável pelo pelouro do Ambiente, que comenta:

“A recolha de pneus abandonados deve respeitar o princípio da responsabilidade alargada do produtor/detentor, devendo ser assegurado o correto encaminhamento deste resíduo, através da sua entrega nas redes de recolha seletiva existentes e devidamente autorizadas pela Valorpneu (entidade responsável pela organização e gestão do sistema de recolha e destino final de pneus usados).

Ou seja, quando um cidadão decide acumular pneus usados abandonados, deve garantir que o produtor/detentor/proprietário tenha conhecimento da sua responsabilidade pelo correto encaminhamento desses resíduos e dos procedimentos a adotar no acondicionamento e transporte para um Centro de Receção licenciado para o efeito”.

Revista Automotive: Os cidadãos podem realizar recolhas de resíduos em terrenos privados, mesmo que não sejam os seus proprietários?

Joana Baptista: Podem, se o proprietário assim o autorizar e se assumir a sua responsabilidade enquanto detentor. Não obstante, a responsabilidade pelo correto encaminhamento dos pneus usados será sempre do legal proprietário do espaço onde os pneus se encontram abandonados/acumulados.

RA: Quais as entidades a contactar previamente à recolha destes resíduos?

JB: Quando se identificam pneus abandonados num determinado espaço, deverá contactar-se as autoridades competentes (Polícia Municipal e SEPNA), para que essas possam identificar e notificar o proprietário para a remoção dos mesmos em tempo útil.

RA: Que cuidados a ter na recolha e acondicionamento destes resíduos?

JB: Os centros de Receção aceitam nas suas instalações os pneus usados (sem quaisquer contaminações) a custo zero, livres de encargos para os detentores, sendo, contudo, o transporte dos mesmos da responsabilidade do detentor. Assim, é importante que os pneus sejam limpos de terras, tintas e outros contaminantes e separados por tamanhos e características (antes e depois de 2013) e que sejam encaminhados de imediato para o centro de receção de pneus.

RA: Apesar de imbuída de boa vontade, pode a recolha voluntária de resíduos criar um problema maior para o Município?

JB: Se o Município for chamado a intervir e se assumir a responsabilidade do detentor/proprietário pode, desse modo e indiretamente, incentivar ao abandono de pneus usados o que constitui uma contraordenação ambiental grave. Além disso, a acumulação de diversos pneus num determinado local contribui para o aumento do risco de incêndio e, consequentemente, para a insegurança da população que reclama junto do município, comprometendo-o por uma (i)responsabilidade de terceiro.

RA: Ao recolher os resíduos, os cidadãos passam a ser detentores dos mesmos?

JB: Não propriamente. Os detentores e responsáveis serão, à partida, os proprietários dos terrenos onde se encontram os pneus abandonados, daí a necessidade de serem envolvidas as autoridades competentes e proceder-se em conformidade com a legislação em vigor.

RA: No caso em concreto, qual será o procedimento da Câmara de Oeiras e o destino dos pneus que foram recolhidos?

JB: O Município de Oeiras, após tomar conhecimento da ação e depois de assumir a responsabilidade pelo encaminhamento dos pneus usados e que foram acumulados num terreno privado pelos cidadãos, contatou a Valorpneu para avaliação prévia do estado dos mesmos e solicitou autorização de descarga no centro de receção mais próximo.

Após o parecer favorável dessa entidade, uma equipa constituída por 5 funcionários procedeu à recolha, transporte, descarga e separação dos pneus, sendo posteriormente reencaminhados pelo centro de receção para o destino final adequado – reutilização dos pneus fabricados após 2013 e incineração dos restantes.

(Fotos: Revista Automotive e Guardião do Oceano/Divulgação)

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